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A poesia do cotidiano

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Barulho da chuva na telha. Cheiro de café sendo passado.  Cochilo na rede. Brisa do mar. Céu estrelado. Domingo de sol. Livro novo.  Encanto da nova amizade. O descanso da antiga. Amor de tia. Colo de mãe. Segurança de Pai.  Casa de vó.  Projeto novo. Trabalho a empreitar. Construir algo. Um desafio para enfrentar.  Deus perpassa sorrindo nas linhas e entrelinhas do cotidiano.  Poeta das vivências mais corriqueiras, de tudo faz rima, de tudo tira um bem. Beleza da simplicidade na qual se revela, só um desatento diria que Ele está a se esconder.  Tanta riqueza em tanto lugar. Tanto Deus para contemplar! E quando as linhas se entortam e se emaranham em dor, assombra a precisão de sua escrita firme, que tudo ajusta e conserta; com a onisciência de quem tem sempre a palavra final. Que os versos da rotina nos façam ver as marcas do Eterno, no dia a dia de quem só tem o hoje para viver.    

É só a vida acontecendo...

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Enquanto a onda me toca, me joga e me tira do chão;  Esconde-me em Teu Lado Aberto e devolve o porto seguro ao meu coração. Enquanto o tempo é de incerteza e a correnteza me puxa para o fundo do mar;  Reaviva em mim a certeza de um novo tempo que logo virá. Se a água salgada turva os olhos e nuveia o sentir;  Que pela fé eu contemple a calmaria que está no porvir. "Esperança", sussurra a bruma que se esparrama na areia.  "É só a vida acontecendo!"; diz a onda que recua e arrebenta, num movimento de recomeço. É só a vida acontecendo...

“Nos salgueiros por ali penduramos nossas harpas”, mas sabemos que há um louvor que só se dá da Cruz.

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Salmo 136 "— Que se prenda a minha língua ao céu da boca, se de ti, Jerusalém, eu me esquecer! — Que se prenda a minha língua ao céu da boca, se de ti, Jerusalém, eu me esquecer! — Junto aos rios da Babilônia/ nos sentávamos chorando,/ com saudades de Sião./ Nos salgueiros por ali/ penduramos nossas harpas. — Pois foi lá que os opressores/ nos pediram nossos cânticos;/ nossos guardas exigiam/ alegria na tristeza:/ “Cantai hoje para nós/ algum canto de Sião!” — Como havemos de cantar/ os cantares do Senhor/ numa terra estrangeira?/ Se de ti, Jerusalém,/ algum dia eu me esquecer,/ que resseque a minha mão! — Que se cole a minha língua/ e se prenda ao céu da boca,/ se de ti não me lembrar!/ Se não for Jerusalém/ minha grande alegria!" “Junto aos rios da Babilônia nos sentávamos chorando, com saudades de Sião ”, pois estamos exilados na babilônia de muitos sofrimentos. Nas noites mal dormidas, nas ausências sofridas, nos corredores dos hospitais. Exilados no pavor e na inseguranç...

Oh, meu Senhor, vem me converter!

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  O Imaculado Coração de Maria foi cortado por uma espada que transpassou a sua alma de dor.   O Lado de Jesus foi aberto por uma lança, ferida que jorrou sangue e água.   Coração aberto de amor. E eu, a todo custo, ainda quero guardar o meu coração, com medo das feridas e dos rasgões; buscando remendar cada dor do viver. Oh, meu Senhor, vem me converter! Que eu aceite a espada do desconforto, da desinstalação e das incompreensões. Destrona o meu desejo de me proteger. Retira do centro o medo de sofrer. Oh, meu Senhor, vem me converter! Que da lança eu não me desvie, que do meu dever eu não me esquive. Que a Cruz eu possa abraçar, que Tua vontade eu sempre venha a escolher.   Oh, meu Senhor, vem me converter! Tudo para Ti, tudo por Ti. Venha o que vier. Suceda o que suceder. Espadas, lanças, feridas e rasgões: teu é meu coração. Oh, meu Senhor, vem me converter!

“Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra?" (Jó 7, 1)

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Sobre a terra, "é noite que se passa em uma péssima hospedaria" (Santa Teresa D´Avila).   Sobre a terra, é cabeça sem local de repouso, é coração sem descanso. É batalha sem trégua. É luta, contínua luta. Um tropeço, uma queda, um susto, o inesperado; é preciso recomeçar.   Recomeçar mais uma vez. Vence a prova, vem a tribulação. Passa o sufoco, vem o aperto.   É de fato um "não vos canseis porque nunca chegareis ao fim", com um "eita atrás de eita". Mas é a luta que noticia a batalha. A guerra que forja o soldado. E a prova da terra que prepara para o céu.   Suor e lágrimas que fecundam as raízes plantadas na eternidade, esperança que combate pelo que não passará. Pés no chão, coração ao alto. Mãos na terra, com o coração nas mãos, em tudo que fizer. Olhar para o céu, onde a luta cessará; porém, lutar na terra até o último dia, sem esmorecer.   Afinal, já dizia São Josemaria Escrivá: “ Estou cada vez mais persuadido disto: a felicidade do Céu é pa...

A voz de Deus

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"Naquele tempo, Jesus subiu ao monte e chamou os que ele quis. E foram até ele." (Mc 3, 13). A voz de Deus é inconfundível. Som que transpassa a alma. Cortante como uma lança. Divide o antes e o depois. A voz de Deus é incontestável. Não há o que contrapor. Ela desarma exércitos  imbatíveis. Rende corações impenetráveis. A voz de Deus não deixa dúvidas. Ocupa espaços, preenche vazios. Perdura com o passar do tempo, seu eco se destaca.  A voz de Deus é irresistível. Uma vez ouvida, jamais poderá ser esquecida. Tem a força de mover o intransponível. A voz de Deus é imperativa. Doce, porém demolidora. Grito que rompe a surdez do rumo de vida. E chamou os que Ele quis. E continuamos indo até Ele. 

"De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo." (Adélia Prado)

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Esfrego os olhos num movimento repetido, na pueril esperança de voltar a ver mais do que se encontra ao alcance de minha visão. Quero de volta o encanto que traz a poesia, com a capacidade transformadora da Beleza, que me devolve criatura ao Criador. Versos de realidade que me firmam no hoje, sem prender-me à dureza crua da desesperança. Como viver sem poesia? Sem o encaixe das palavras certas que fazem o mundo cantar? Devolve-me, Senhor, as entrelinhas falantes, os silêncios eloquentes, as palavras que emudecem e os símbolos que traduzem os segredos da alma! Devolve-me, Senhor, a vida que ultrapassa os sentidos e a transcendência das esperas! Se tens de tirar algo, por favor, não tires a poesia. Tira, Senhor, por favor, a pedra, mas a pedra do sepulcro onde ficou sepultada a sensibilidade do pintor, a escrita do poeta e a voz do músico. Tira a pedra do medo que calou o artista. Resgata os que precisam devolver ao mundo a poesia com sua arte. Faz rolar a pedra que enterrou tantos...

A Barca é Presépio

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  Diferente. Um natal diferente, análogo a um ano que nunca imaginaríamos viver. Se começamos sendo lançados ao mar bravio, é fato que, para a maioria, o porto ainda não foi avistado.  A tempestade que, ao entardecer, “desmascarou a nossa vulnerabilidade”, nos deixando “frágeis e desorientados”, nos trouxe assim a um outro tempo, nos trouxe aos pés do Senhor que também dorme, mas dorme como um pequeno e manso menino.  A voz que acalmou o mar e cessou o vento, agora chora.   O choro de um amor encarnado que se une a nossa humanidade de maneira plena, assumindo também o nosso pranto.   Lágrimas de um Deus que ama, que se importa, que docemente se abaixa, para nos encontrar em nossa fragilidade.   Nossa fragilidade que foi involuntária e bruscamente exposta, desnudada pela dor; enquanto a Dele foi assumida de maneira voluntária, para nos salvar da morte. É também em um entardecer que Ele chega, na verdade, em uma noite.   Lugar propício para a ação de Deu...

O Caderno de Oração

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Quando fui rezar hoje, percebi que estava na última folha: o caderno de oração acabou. Uma nostalgia boba, melancolia anormal para uma colérica sensível! Enfim, fui me despedindo daquele mundo próprio de registro de encontros.  Tanta alma em cada linha, e milhares de outras coisas que não cabem em palavras. Tinta borrada com lágrimas, rascunhos de desejos, tentativas de traduzir experiências, garranchos indecifráveis de mistérios que permanecem em espera... Promessas, Palavras, brigas (muitas!) e segredos. Ah! Os segredos! Entendimentos e silêncios. Quantos silêncios, mesmo os escritos. Pausas, espaços, dias intensos e dias "pulados" pelas datas, que vão dando ritmo ao leitor único de tanta riqueza.  Na era do digital, o papel que resiste e que tem cheiro; odor de vida e de tempo. Memórias vivas de um caminho. A vida interior contada "de dentro". Narrativa privilegiada do encontro diário da criatura com o Criador. Quanta graça!  Escrever para Deus, escrever sobre ...

Ao Carisma Shalom

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A ponte caiu. Não há mais como voltar. No caminho que se faz caminhando, na via que se abre no mais árido deserto, o sim foi a cada dia se tornando para sempre. O sempre no sim de cada dia. E os dias se tornaram anos e os anos se tornaram toda a vida. Pertença, aliança, eleição. O sinal visível no peito, o peito ardente em gratidão; um já é do outro, não há mais separação. As raízes no céu, os pés na terra e o coração na obra. Tudo que é teu me importa. Por Cristo, em ti sofro, vivo e morro.Os teus são meus filhos também. Amarrei-me contigo ao mastro, assim seguirei. Tesouro em vaso de argila. Carisma tão santo e tão belo. Meu lugar, meu caminho, minha escola de amor. Minha terra santa desde minha juventude, lugar sagrado do cumprimento das promessas de Deus. Escolho-te hoje e para sempre. Daqui até a eternidade. Sustentada pela escolha de Deus por mim, que passou e passa por ti. Tu me lembras definitivamente o que sou. Não sei de mim, sem falar de ti.  Tu me levas para o céu. Beij...

O que não se conta nesse tempo

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Todos os dias a gente conta. Contamos o número de doentes, de mortos, de recuperados. A gente analisa gráficos e tenta compreender se a “curva” diminuiu. Contamos as vagas nos hospitais ou a falta delas; contamos os dias que passam, quase incrédulos quando somamos todos eles. Contamos quanto tempo falta para acabar, contamos se o dinheiro vai dar. Muitos números. Muitos dias. Muita conta.  E o que não se conta? Já parou para pensar? Não se contam as lágrimas vertidas, a dor sofrida e o tamanho da ausência de quem partiu. Não se calcula a saudade (quanta saudade!), e nem se mede a impotência que é ver quem se ama doente. Mas também não se pode analisar a quantidade de ofertas, os cansaços de amor, os sacrifícios silenciosos e nem o aumento da “curva” dos martírios. O que não se conta nesse tempo não é o que está mudando o mundo inteiro, mas o que se está sendo construído e reconstruído nos bastidores de cada coração.   O que repercute nas manchetes dos jornais não...

Sábado Santo: o grito por silêncio

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Passou a sexta. E que sexta santa! Mas a dor dilacerante parece que já foi vencida pelo cansaço e pela solidão. A ferida ainda está aberta, mas coberta pelo lençol do tempo. Logo chegará o domingo. O Grande Domingo! A ressurreição vai transformar tudo, e o coração voltará a bater. Tudo vai recomeçar… mas no meio havia um sábado.  E é sobre esse sábado que eu quero falar. O Sábado Santo pode até passar despercebido entre dois grandes mistérios. Mas é no sábado que nos recuperamos da dor e nos preparamos para a alegria.  É no sábado que aprendemos o silêncio e a espera, de um coração sofrido que continua a crer. É no sábado que Cristo nos prepara para a Sua vitória. Parece que essa preparação em nossa vida saiu de moda. Tudo é vivido tão rápido, tão ligeiro! A resposta tem que estar pronta, o discernimento feito! Pronta entrega de decisões! Ah se houvesse um sábado no meio! A graça de viver o luto, a dúvida e até o medo. A alegria de ter o que antes muito se espero...

Acorda-nos, Senhor!

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Jesus, Tu estás conosco no barco. Mas a nossa fé, frágil e assustada, nos impele a querer te acordar. Não sabemos lidar com tempestades e esperas. Tu domes, Senhor, mas somos nós que precisamos despertar do nosso medo.   Acorda-nos, Senhor! Acorda-nos para a esperança!   Pois quanto mais escura a noite, mais próximo está o dia. E sempre existe um dia seguinte para quem confia mais um pouco. Desperta nosso coração cansado, para a espera de quem sabe que basta uma Palavra Tua e vem a calmaria. Relembra-nos quem é a nossa calmaria, Senhor. Tira-nos do sono do pavor, que paralisa o nosso coração e que consome as nossas forças. Desperta-nos para a fé, que navega pelos mares e ultrapassa as ondas gigantes, enxergando o porto que ainda não se pode ver. Aquieta-nos com o silencio da Tua Presença, que é maior do que o barulho do oceano bravio que existe em nós.  Desperta-nos do sono da solidão, que nos lança no egoísmo profundo, fazendo com que nos pre...

Hoje eu acordei, beijei meu Tau...em tempos de pandemia!

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Hoje eu acordei, beijei meu Tau, agradeci a Deus por sua eleição por mim e fui em missão.   Em tempos de pandemia, missão de ser luz no mundo e sal na terra, mesmo sem sair de casa. Porque a paz, nunca foi a ausência de guerra e, estar no mundo, pertencendo ao céu, é também viver as pequenas e grandes ofertas do dia a dia, sejam elas quais forem, no ordinário e no extraordinário de cada tempo, sem perder o alvo que é santidade, “não por presunção, mas por vocação”.   Por isso, missão hoje é não perder o ritmo da vida de oração, não parar nunca de rezar para não deixar ser invadido pela tribulação e pelo caos no coração. Missão hoje é ser incansável na intercessão, pedindo a Deus uma intervenção, acreditando que Ele está conosco na barca. Missão hoje é servir sempre e como puder, servindo aos de casa, faxinando, cozinhando e, como Santa Teresa, a nossa baluarte na vocação, encontrar a Deus “até em meio as panelas”. Missão hoje é cuidar dos pais, dos filhos, dos a...

Tudo começa no deserto.

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Tudo começa no deserto: a obra nova, as quaresmas e as quarentenas dessa vida.   De repente acaba a água. “Ah, se fosse só isso!”; diria o outro que sente a falta de tudo aquilo que nem sabia que tinha. É uma dura dor da ausência, que parece exaurir as forças da alma. É a dor da solidão, do tempo que não passa, das saudades que se somam, das incertezas e do aparente ócio. É olhar para o horizonte e não conseguir mais vê-lo. Parece a narrativa do fim e não de um começo. O que tem no deserto além do medo?  Quando estiver muito difícil, lembra que é do deserto que vem a promessa da via que é aberta e da obra nova que surge. É de lá que correrão arroios, que brotará água, que haverá um povo novo.  Quando parecer longo demais o caminho, não esquece que o deserto é o lugar do impossível, do improvável e do inesperado. É o lugar onde Deus fala ao coração. Escuta. Algo muito importante Ele precisa dizer. Recomeça. Ninguém sabe ao certo ...